Um crime quase perfeito

Quem acompanha o cenário político ,e, principalmente  aqueles assuntos que gravitam na órbita da   Operação Lava Jato,têm observado  que os petistas,quando perguntados a respeito das “doações” ao Partido, respondem quase de forma  padronizada,automática e ensaiada  que todas  elas foram feitas obedecendo  rigorosamente  a legislação eleitoral.Isso sempre me intrigou.A tranquilidade com que tratavam o tema  nos fazia crer e principalmente fazia crer a eles que algo de muito mágico  ou mesmo genial    garantia,de forma  inquestionável, esse comportamento.Teriam eles descoberto a formula do crime perfeito?Ou nada disso seria verdade e se tratava apenas da habitual arrogância  petista  de se pretender inalcançável pela lei e pela justiça?Foi esse o seu comportamento  ao longo da  Ação Penal 470,mais conhecido como Mensalão,mesmo após  o termino do julgamento.Se definiram como heróis.Lembram-se?

Mas hoje,ao ler o noticiário  minha ficha caiu e pude entender com clareza  como tudo aconteceu.Ao se confirmar que as doações realizadas dentro das tecnicalidades   da Lei Eleitoral,  e confirmadas pelos delatores e até pelos próprios doadores era um jogo de cartas marcadas,a vaca do PT começou a ir pro brejo.O que era ilegal,longe de ser o ato da doação,era    o próprio dinheiro doado cuja origem ,todos nós sabemos ,decorria das propinas e assaltos ao caixa da Petrobras.O que aconteceu na realidade,foi que o Partido dos Trabalhadores se transformou na maior lavanderia  de dinheiro desviado da estatal. O dinheiro era frio e o PT o esquentava   com a maior desfaçatez.O recebimento da propina  sob a forma de doação oficial  parecia a eles  o crime perfeito.Por isso aquela tranquilidade angelical. Mas  –sempre existirá um mas– o surgimento dos delatores e dos doadores jogou por terra essa estratégia  simplesmente confirmando a máxima: Não existe crime perfeito!

Tributo a um pescador

Nuca  nasceu João Abadia no final dos anos cinquenta.Filho de lavradores,morou nos primeiros tempos na Fazenda Santa Cruz,município de Perdizes no Triangulo Mineiro.Não me lembro de sua infância,já que minhas idas à fazenda se resumiam às férias escolares. Deve no entanto ter sido igual a de tantos outros cablocos; um ou dois anos na escola publica municipal  e, o resto do tempo no cabo da enxada numa lavoura de arroz ou uma roça de milho.Nuca mal sabia   desenhar o nome,naquela letra tremida que saia da ponta do lápis,num  mistura de pânico,vergonha e esforço.Viveu sempre ali nas redondezas,ora numa fazenda, ora noutra,nunca perdendo de vista a terra dos Borges, onde nascera.Nos últimos quinze anos voltara a sentar praça em nossas terras ,para não mais sair.Era o jardineiro da sede,tratador de porcos,carregador de lenha,apanhador de frutas e verduras e vaqueiro nas emergências.Nuca era uma figura singular.Humilde e caladão jamais questionava uma ordem.Todos  mandavam nele.Não só os patrões,mas os colegas e,até os parentes.Todos se julgavam no direito  de lhe cobrar tarefas.E ele ali ,silencioso e cabisbaixo,pronto a obedecer.Era o seu  jeito de levar a vida.Podia ser reconhecido à distancia pelo andar cadenciado,sem pressa,braços caídos ao longo do corpo franzino,e cabeça pendida sobre o ombro esquerdo.Trabalhava duro desde muito cedo até   a tardinha.Muitas vezes ,após a jornada eu o chamava até a porta da cozinha e lhe oferecia uma cerveja ou uma talagada de pinga.Ele gostava desses momentos.Era um exemplo perfeito do cabloco mineiro:jamais lhe dava uma resposta definitiva ou direta.

__Como é Nuca ,vai pescar hoje?

__Tô pensando!

__A lua ta boa pra pescar?

__Ta cum jeito!

__Onde você vai pescar?

__Lá pras banda das pedrera,no ribeirão.

Ele era assim.Nunca dizia onde pescava.Não mostrava os poços pra ninguém.Pescar era sua paixão  e o Ribeirão Perdizes seu santuário.Algumas vezes íamos juntos pescar.Não raro,enquanto caminhávamos  ao longo das margens,eu percebia pelo canto do olhar que sussurrava algo inteligível acompanhada de gestos.O danado me benzia!Se tinha alguma coisa que ele não suportava era alguém pegar mais peixe do que ele.Quando chegávamos a um poço ele dizia:

__Vamo tentá aqui

__Aqui tem peixe?

__Muito.

Quando eu me dava conta ele tinha desaparecido.Passado algum tempo ele surgia e, ainda de longe perguntava:

__Pegou quantos?

__Nada.Só dei banho em minhoca.E você?

Aí ele abria um largo sorriso e feliz mostrava a penca de bagres,como se fosse um troféu.Me dava todos de presente.Seu prazer era simplesmente pescar.Toda vez que eu chegava na fazenda,encontrava uma bacia de bagres a me esperar.

__O Nuca ficou sabendo da sua vinda e pescou pra você,dizia minha mãe.

Não passava um fim de semana sem pescar.Num certo domingo de Setembro ele e o vaqueiro foram pescar.Pegaram como nunca.Voltaram para casa felizes com o sucesso da pescaria;à noite vieram as dores no abdômen.O Nuca foi levado as pressas para  a cidade.Passou uma noite na enfermaria e depois foi transferido para a UTI do hospital.

Agora o Nuca não existe mais.E ,no silencio de suas margens vazias,na quietude de seus poços  misteriosos,pode-se ouvir o murmúrio das águas do Ribeirão Perdizes a lamentar o companheiro que não volta mais.

Reminiscencias

Hoje, por um acaso desses que ocorre em nosso cotidiano, postei-me defronte um quadro pendurado em minha sala,quadro esse baseado em uma foto por mim tirada e magnificamente   reproduzida  em tela por nada mais nada menos que Nazareno Altavilla (1921-1989) em 1974,por encomenda de minha mãe Pronto o quadro ela me entregou dizendo:” você tirou a foto portanto o quadro é seu”..Ele mostra a fachada lateral do casarão da Fazenda Santa Cruz de meus avós, com seus cinco janelões,dois pés de manga quase centenários, e um  coqueiro infinitamente longilíneo com suas palmas definitivamente apontando para o sul,indicando a predominância do vento norte naquele vale sereno do Ribeirão Perdizes..A foto e por conseguinte,o quadro  mostram  toda essa paisagem  num  ponto inclinado acima do retratista.

Fiquei ali ,de pé, olhando o quadro,e, suavemente coração ,alma e memória ,foram se incorporando numa mágica simbiótica àquela  terra  intensamente vermelha , e os fatos e imagens   foram surgindo em minha mente   de forma tão nítida como se eu estivesse ali   naquele momento , e pudesse  concretamente  tocar aquela terra  que sempre me foi tão cara e amada.

Ali naquele mesmo local,chamado por todos de Pasto do Engenho – outrora havia ali um engenho de cana- vivi, ainda criança,  momentos de  intensa emoção ao participar de  eventos  e situações  que as crianças de hoje  jamais  vivenciarão.Era época da colheita do milho e  após ajudar na sua quebra lá na roça  , carregávamos o carro de boi  para o transporte até a sede da fazenda.A distancia era longa  e  como candieiro eu vinha à frente  conduzindo a junta de guia determinando o caminho a seguir.Embora isto tenha ocorrido há aproximadamente   60 anos,guardo ainda na memória o nome de algumas das juntas do comboio:a de guia era Baiano e Tinteiro,um branco e o outro bem fumaça;das juntas intermediarias ,Brasil e Rochedo , Brasil um boi vermelho  com uma enorme mancha branca           que ia do cupim  ao joelho da pata dianteira direita formando  algo parecido com o mapa do Brasil e  Rochedo  um boi roxo escuro de chifres longos;uma outra  parelha era formada por  Ramalhete e Bordado,este último um boi de couro bastante escuro,quase preto, todo rabiscado caprichosamente de linhas brancas a lhe desenhar todo o corpo ,e mais não lembro.A ultima junta,aquela , em cuja canga  se apoiava a mesa do carro era chamada de junta de cabeçalho ou de coice Se chamavam Campista e Completo.Era a junta que suportava os piores   encargos.Nas subidas todos se esforçavam,mas nas descidas era a junta de coice que aguentava o tranco  praticamente sozinha.Nessas situações era visível e assombroso ver todo o peso do carro empurrar  a canga,por sinal pesadíssima, para a frente até encostá-la nos chifres   dos animais, e, era ali,nos chifres que ocorria toda a resistencia.Normalmente o carro vinha completamente lotado,com  as espigas de milho passando acima do limite da esteira e com os fueiros vergados pelo peso.Numa dessas viagens, lá vínhamos  nós subindo este pasto com o carro naquele   lamento candente e triste que podia ser ouvido ao longe,quando   subitamente  um dos rodeiros  se enterrou  no solo até quase a sua metade.O comboio   simplesmente travou.Meu tio ,que era o carreiro, fez varias tentativas de    desencravar.  Todas elas se mostraram infrutíferas..Olhou para as juntas,que ele conduzia sempre com maestria, e vendo   que o esforço os tinha extenuado virou -se pra mim lá na frente e gritou  “ vamos dar um descanso aos bois e depois tentaremos”.E lá ficamos nós por talvez uma hora  sentados à beira da estrada sob a sombra de um jatobá..Por fim ele se levantou, ergueu o chapéu acima da cabeça,olhou para o céu como a pedir ajuda e me disse para largar a guia e me postar do outro lado  do comboio e  fizesse o mesmo que ele iria fazer.Enquanto percorria todas as juntas ia dizendo o nome de cada boi.Feito isso , colocou-se a meio caminho entre a guia e o cabeçalho e  brandindo o guiso da vara de ferrão -ferrão nunca usado- falou firme pro comboio:”  agora vamo vê se vai”  e imediatamente começamos a gritar o nome de cada um .O que  eu vi e ouvi,jamais se apagará de minha memória..Eu vi boi caindo de joelhos sobre as patas dianteiras levados pelo esforço,vi boi berrando roucamente  com a língua pra fora e olhos flamejantes  e vi boi soltando sangue pelas ventas  de tanto buscar energia   em suas entranhas.Lentamente a roda começou a se mover  e alcançou solo firme.Meu tio deu o comando de parar e    nós dois ,ainda ofegantes, sentamos no chão e ficamos a  olhar  aqueles animais também  exaustos  aguardando o próximo comando.Me virei pro meu tio e perguntei:e agora?Ele olhou para mim ,tirou novamente o chapéu,olhou pro céu,deu um leve sorriso e disse:”não tenho coragem de hoje pedir mais e eles.Vou desengatar o carro,colocar a  espera(peça  de apoio para manter a mesa do carro na horizontal)  e liberar esses bravos animais para um merecido descanso.Amanhã voltaremos.”