A Estrada da Vida

Acredito que cada um de nós ,ao nascer, já tem traçada para si uma estrada a percorrer.Nunca será possível saber,de forma antecipada,o que esse caminho lhe reserva.Podemos,a cada momento  dar uma olhadela para trás,e daí tirar algumas conclusões.É dessa maneira que me comporto.E, quando assim procedo ,percebo que nessa minha trajetória,coisas boas e coisas ruins aconteceram.È dessa maneira, com altos e baixos,que esse chão vai sendo  percorrido.Acontece na vida de todas as pessoas.Nessa minha caminhada,vivenciei de tudo e vi de tudo. Já fui vitima de traições,não amorosas, mas de condutas  de pessoas de quem jamais deveria partir ou de quem nunca esperava. Já  sofri   humilhações,insultos  , ofensas          gratuitas     ,discriminação,quebra de palavra empenhada com cínica e hipócrita desfaçatez,.Já fui vitima de mentiras pérfidas  e propositais que me levaram  a emitir declarações falsas em documentos.Felizmente  corrigidas quando descobertas.Até ideias propostas por mim em um projeto,uma desqualificada jocosamente e logo implementada , e outra  adotada como  se dele fosse,isso na minha frente,sem ao menos ficar ruborizado, me foram roubadas..Essas coisas ruins tem seu lado positivo.Elas vão te ensinando  a levar a vida.A conhecer o caráter  de quem as comete.Elas te enrijecem a pele  mas também massacram o seu peito e dilaceram o coração.Mas aí as coisas boas restabelecem o  equilíbrio e renovam as suas forças  para continuar a caminhada.Eu estou  perto de ultrapassar uma ultima curva dessa minha estrada que me libertará de ter que olhar para trás.A partir daí, minha caminhada  terá outra dimensão,outro significado,outro horizonte .Jamais    precisarei girar a cabeça e olhar pelos ombros   para a  poeira suja que ficou.Olharei resolutamente para a frente e para os lados.Ali estarão minha  esposa, minhas filhas,meus genros, meus netos,e meus amigos.Nunca  mais terei receio das curvas que virão.E , sei ,que  um dia haverá uma ultima curva e nenhuma estrada.Mas as energias etéreas hão de me permitir vislumbrar `a minha frente  meus entes queridos percorrendo as suas estradas.E ao longe as pessoas ouvirão os sinos tocarem e se perguntarão: por quem os sinos dobram?E, onde quer que eu esteja,se puder,responderei:

Eles dobram por mim

Por   ti

Por todos aqueles  que percorrem a sua estrada com dignidade.

Duarte

4:30 da manhã.As batidas enérgicas na porta do quarto seguida de um grito  de “tá na hora” vindo do outro lado soam como tropel de cavalos  aos ouvidos do menino,que    lentamente vai acordando.

Zé Duarte senta-se à beira do catre,ainda meio sonolento,esfrega os olhos com as mãos,arrasta com o pé a botina mateira para perto de si e, num gesto quase automático tateia a mão sobre o pequeno criado à procura do fósforo.Logo a luz fraca da vela ilumina toda a singeleza de seu recanto.Além da cama e do criado somente uma velha cadeira onde sua roupa de trabalho aparece e desaparece ante a chama tremula  da vela quase a apagar.Ao vesti-la o cheiro forte de esterco atinge suas narinas,acordando-o de vez ,como que a lhe lembrar de suas obrigações.Duarte,como era chamado por todos,ainda nos seus pouco mais de dez anos,era  já um vaqueiro de mão cheia.Já vestido,com seu inseparável agasalho  em uma das mãos,ele pára junto a mesa da cozinha, e, de pé toma seu  caneco de  café com broa de milho e sai em direção ao curral.Ao sentir o vento frio a lhe arder no rosto,veste apressadamente o palitó de brim ,levanta a sua gola para  tentar proteger as orelhas,enquanto caminha pela trilha escura que conhece de olhos fechados.Afinal de contas esta tem sido a sua luta desde quando perdeu os pais  aos oito anos de idade  e foi morar com o tio fazendeiro lá pras bandas de  Itabira.Menino de corpo franzino,cabelo agarrado à cabeça como que besuntado de óleo de capivara,olhar esperto de quem não perde nada a sua volta,Duarte  já mostrava no vigor de suas mãos e braços as consequências do esforço no exercício da ordenha.Ao chegar ao curral,cumprimenta respeitosamente o tio,pega seu balde e seu par de sedéns e inicia o seu oficio;abre a cancela ,solta o primeiro bezerro que,espertamente passa a frente dos demais e, enquanto espera que mãe e filho se encontrem, esfrega as mão vigorosamente para  aquecê-las.Caminhando lentamente por entre o gado ,Duarte se aproxima da vaca,toca  levemente na testa do bezerro que rapidamente contorna a mãe e passa a mamar pelo outro lado.Com agilidade e rapidez  o menino peia a vaca,tomando o cuidado de prender a ponta do rabo junto  às patas traseiras para evitar  levar uma lambada enquanto ordenha; passa o outro sedém no pescoço do bezerro,aplica-lhe uma focinheira e,com firmeza  obriga-o a retroceder ,amarrando-o à pata dianteira  direita da mãe.Pronto.Agachado junto a vaca ,Duarte coloca o balde entre as pernas,passa as mãos nas tetas para limpar o babujado que o bezerro deixou,limpa as mão no couro da anca do animal,volta às tetas e o leite começa a cair no fundo do balde ruidosamente.Alí,agachado no vai-vem alternado dos braços na tirada do leite,ele começa a pensar se sua vida se resumirá a aquilo.Mas isto é outra história.

As datas da minha vida

Vinte e oito de dezembro ,dezessete de dezembro dois de  fevereiro,dois de março ,dois de maio,dezenove de julho vinte e quatro e vinte e seis de julho.Não são apenas   datas ou números.Tenho forte convicção que algo de místico,de transcendental ,de cuidadosamente programado ocorre na existência de qualquer ser humano.São eventos determinísticos  que independem de sua vontade ou de sua ação e que  acabam por marcar a sua vida  de alguma forma .

Foi num vinte e oito de dezembro que iniciei minha vida profissional ,ao ser admitido na Usiminas e onde permaneci até me aposentar.Nasci no dia dezessete  de dezembro e, acreditem,me formei num dezessete de dezembro.Dois de março  é o aniversario de minha primeira namoradinha,dois de fevereiro marca o nascimento de uma pessoa que   muito me marcou nos meus anos de juventude e num dezenove de julho me casei Em vinte e quatro e vinte e seis  de julho nasceram minhas filhas..Dois de maio é também um dia muito especial.Nesse dia nascia  no ano de 1895 Odilia Ribeiro Borges,minha avó.Para essa, o destino reservou uma vida de muita luta  , abnegação e sacrifícios .Com o marido,ambos ainda muito jovens, estabeleceram-se nas terras da Fazenda Santa Cruz ainda por ser formada;sem pastos sem casa ,com tudo por fazer.Moraram  em um paiol,que chamavam de Paiolinho,enquanto se construía aquela que viria a ser a sede da fazenda..Para formar os campos de pastagem arrastaram pedras e usaram as próprias mãos para ferir o solo e jogar as sementes.E, nessa labuta conviveram por 41 anos até o falecimento de meu avô em 1953.Minha ligação com ela foi sempre muito forte.Hoje ao abrir o cofre em busca de um documento me deparei com o relógio de pulso  ,presente dela nos meus 15 anos.Ele está lá com o folheado esmaecido pelo tempo,sem o pino de dar corda,com os ponteiros  irremediavelmente imóveis.Eu nunca quis  consertá-lo.No meu intimo  queria que ele ficasse ali  eternamente retido naquele tempo de outrora  onde a presença dela ainda me alegrava o coração  .D.  Odilia foi- se embora numa segunda feira de carnaval dezessete de fevereiro e eu tive  o sagrado privilegio de ser o único dos netos a falar com ela, no leito do hospital  .Suas ultimas palavras para mim foram: Fabio, fala pra esses médicos tirarem esses tubos do meu nariz”.Era a ventilação de oxigênio que a incomodava.Faleceu naquela noite.

Guardei carinhosamente de volta o relógio e instintivamente levei a mão ao pescoço onde,numa corrente de ouro,carrego a aliança de casamento do meu avô.No seu interior está escrito:Odilia  e uma data.Querem saber qual?

Vinte e oito de dezembro de 1912.Onde tudo começou!.

Fabio Botelho /2015