PETI

Aqueles cuja trajetória de vida  se confunde com a  da terra onde  nasceram e cresceram entenderão sem nenhuma dificuldade  o significado  da narrativa   que aqui começo:

A presença de animais ao nosso redor sempre foi vista como  um misto de companheirismo,de parceria de solidariedade recíproca.Assim sempre convivi com cães e gatos  trançando em meio a nossas pernas.Se lá atrás  nos meus quatro ou cinco anos  o Uísque deu inicio a essa tradição,ela veio se mantendo viva através do Jango,um pastor alemão,da Furrequinha,depois simplesmente Quinha,da Lolita I,uma gata morena de olhos verdes, que vivia a andar pendurada no pescoço  da Emilia,nossa cozinheira.Isso na década de 60.Depois de me casar  essa tradição continuou com a chegada do Pango—um Cocker spaniel de pelagem dourada e do Jimmi outro Cocker mas de pelagem preta.Essa turma foi ficando pelo caminho seja pela idade ou por doença .

Já aposentado e morando  em Belo Horizonte,surge minha filha e o namorado ,trazendo do Rio uma cadelinha da raça Cavalier  para o seu convívio.Bonnie viveu 15 anos,vindo a falecer em  março deste ano.Seus últimos tempos foram muito difíceis.Cardíaca,tinha crises de desmaios e dava muito trabalho.Mas nunca lhe faltou atenção médica e muito carinho.Um dia minha filha a deixou dormindo e quando retornou encontrou-a  na mesma posição.Ela tinha serenamente ido embora.Sem dor  e sem sinais de sofrimento.Foi cremada no dia 18  de março.

Mas a tradição continuou.

Um dia,voltando da fazenda ,lá por volta de 2000 me  deparo com uma gatinha  na minha sala.Fui logo perguntando o que era aquilo.A resposta de minha mulher veio rápida:”passei em frente uma loja e vi essa coisinha em pé com as patas na jaula quase a me implorar que a tirasse de lá.Tirei.”Muito bem,e agora?Agora a gente precisa escolher um nome  pra ela,disse minha mulher.Olhei bem  pra gatinha e pensei:dorso escuro,barriga branca e olhos verdes.Ela será nossa Lolita.

Lolita mora  até hoje conosco.

Um dia ao voltar de uma viagem eis que novamente me deparo com outro felino em minha sala.Não acredito que vocês arrumaram outra gata.Não é gata ,é gato e é castrado. Alem disso vivia junto com a Bonnie,eram amigos e brincalhões.Foi a única explicação que ouví.Lolita também precisou ser castrada de modo que daquele mato não sairia gato algum.Simpatizei com o gato logo de cara e por uma razão muito simples;era todo branco e  de olhos azuis da cor do céu.Pensei:mais um cruzeirense  na casa  .Petkovich  foi gradativamente conquistando a todos.Era um gato altamente sociável.Adorava um colo.De quem quer que fosse.Até de visitas.Muito folgado o Peti.Qualquer um da casa que estivesse deitado no sofá era candidato certeiro   a fornecer-lhe um colo.Ele subia no sofá,deitava no peito  do dito cujo e, como a pedir desculpa pela ousadia estendia a patinha direita e acariciava -lhe o rosto   delicadamente.Era uma figuraça esse Petí.

Há dois anos  ,já com treze anos começou a perder a visão e a audição,acabando por ficar cego e surdo por completo.Ai´nossa rotina mudou por completo.Nada podia ser mudado de lugar;os móveis  as vasilhas de água,as caixas de areia.Mas mesmo assim de vez  em quando ele se perdia.Aí nós o colocávamos em um ponto que lhe permitia se reorientar.Já não corria ou pulava em lugares altos acarretando uma severa perda de massa e força muscular.A decadência foi inevitável.Nos últimos meses  era só pele e osso.Como ele adorava tomar sol,nós o  ´colocávamos em sua caminha  e  a movíamos  acompanhando a trajetória do sol ao longo de nossa sala.Semana passada após quatro dias sem comer,só bebendo um pouco de água o Pitico foi levado ,neste sábado, uma vez mais ao veterinário.Recebeu medicamento e soro.Mas o prognóstico era irreversível.Domingo de manhã  ,mais uma vez o peguei,ele  me reconheceu e o levei para o sol.Acho que esse foi seu ultimo   ato consciente..Passamos,eu e minha filha, o resto da tarde  fazendo –lhe afagos .Como Maria Helena não estava aqui,pegamos um agasalho dela , o enrolamos nele ,para que ,pelo faro ele a sentisse.Ás 16h33min,após quatro tentativas de buscar o ar o Pitico partiu.

Fico com a noticia que minha filha,entre lágrimas ,mandou para a Maria Helena:”Após quatro tentativas de respirar o Pitico  partiu e foi brincar com a Bonnie.”

 

 

 

 

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